terça-feira, setembro 14, 2004
Uma breve descrição do torcedor
O torcedor é um ponto de exclamação. É excessivo. Em períodos mais críticos, vive em estado de exaltação semiótica. Tudo significa. Ele tenta, penosamente, decifrar o sentido da temperatura ambiente, das condições do gramado, das cores da camisa do adversário, das iniciais do juiz. Nas horas mais desesperadas, vê augúrios no vôo dos pássaros e intenções na forma das nuvens. A vida ensina que toda emoção intensa — uma dor de dente aguda, um amor profundo — tende a ser absoluta. O mundo vira dente ou pessoa amada, e todo o resto se desmancha. Com o torcedor semiótico é igual. Ocorre nele, simultaneamente, uma redução e um adensamento do mundo. Quase tudo é negado em troca da forte existência do pouco que sobra. Antes da partida sobram as bandeiras a caminho do estádio, os túneis onde o rádio não pega, a placa do carro que não avança, a camisa do amigo que era/não era essa, o giro e o tranco da borboleta, a conta rápida: quem trouxe mais gente, nós, eles? O resto desaparece. Paisagem, obrigações, prazos, receios, ambições, família, amor. Do corpo, somem tronco e membros. Permanece o essencial: coração e estômago. O que sobrevive à redução do torcedor é submetido a critérios de importância que não correspondem necessariamente ao ordenamento consensual das coisas. Certa vez tomei a avenida Presidente Vargas na volta de Moça Bonita. Levava no carro um amigo e dois conhecidos. Ao passarmos diante da Central do Brasil, um dos conhecidos esticou o dedo na direção do relógio. Os outros acompanharam com os olhos. Estavam pasmos. Transcorrido um instante, o conhecido do dedo proclamou: “É muito mais bonito do que o Big Ben”. O conhecido 2 fez a comparação mental e aduziu: “Muito mais”. O amigo arrematou: “Nem se compara”. Depois se calaram, em respeito. (O relógio estava atrasado doze minutos.) É claro que nenhum deles mentiu. Estavam todos tomados pela generosidade plena que se espalha na alma do torcedor quando ele deixa o estádio com uma vitória na bagagem. Era o nosso caso. Não perdemos aquela partida. Se tivéssemos perdido, essas mesmas pessoas, ao voltar para casa e dar com a lagoa Rodrigo de Freitas, seriam capazes de dizer: “Deviam aterrar”. Mas não existe apenas um tipo de torcedor. São muitos. Sobre aquele que vai ao estádio somente quando o time está bem, desse não falemos. Mais lastimável, só o que mudou de clube. Na hierarquia das vilezas morais que rege o sistema ético do torcedor, nada pode ser mais baixo. Um amigo costuma dizer que conhece pessoas que trocaram de casa, de cidade, de emprego, de profissão, de família, de cidadania, de partido, de sexo — mas não de time, porque nesses casos o celerado se cala. De fato, não conheço ninguém que se sinta à vontade para confessar que um dia virou casaca. É impossível não associar ao fato a mácula da deslealdade. Um exemplo: o sujeito que nasceu não-Flamengo mas na década de 80, diante do poderio do time da Gávea, decidiu aderir às cores rubro-negras, descreveu uma trajetória moral indefensável. Não se trata aqui de uma questão partidária. A sentença moral independe do time de coração, até porque todo ato de virar casaca é no mínimo questionável, e isso inclui as pessoas que mudam para o nosso lado. O que torna o exemplo acima especialmente grave é o fato de o réu ter se deixado seduzir pelo poder. Abandonou o fraco para cerrar fileiras com o forte. Foi um Kisling. Ou, para ficarmos mais perto de casa, um brasileiro deslumbrado com os penachos do regimento dos dragões que bateu no gabinete do vice-rei para dizer que Tiradentes andava pensando bobagens. O inverso é o torcedor de time nanico que bate no peito com orgulho. Toda vez que vou ao estádio e vejo meia dúzia de torcedores do Madureira, do Olaria ou do Barreira saudando a entrada do time com o mesmo entusiasmo das massas soviéticas diante de Gagárin, fico genuinamente espantado. Invejoso, até. É preciso fibra moral para atravessar a vida como soldado fiel de um exército miúdo. Esse tipo de coragem não está ao alcance da maioria de nós, torcedores de time grande. Podemos, no máximo, provar que somos honrados dando mostras de lealdade nos momentos de desgosto ou irrelevância. Todo torcedor que se preza gosta de jogar na cara do outro o fato de ter ido a um jogo completamente inútil, de preferência numa noite chuvosa de segunda-feira, se possível em outro município. O número de torcedores presentes será inversamente proporcional ao tamanho da glória. Conheço gente que já foi a jogo com menos de cem pessoas. O recorde é de um amigo tricolor que assistiu a uma partida na companhia de outros quinze abnegados. Contava essa história com o orgulho de um Amundsen recém-chegado do Pólo Sul. “Tinha mais gente no campo do que na arquibancada!”, repetia maravilhado. O torcedor exemplar precisa ter participado de certas partidas épicas para desfrutar de prestígio entre os pares. Importa também como reagiu a elas. É notoriamente indigno de consideração aquele que não achou, pelo menos durante uma tarde, que a vida não valia a pena depois da derrota do Brasil para a Itália em 1982. Exige-se no mínimo algum choro (seja no gol do Falcão, seja no terceiro do Paulo Rossi) e/ou absoluta inapetência nas horas seguintes à tragédia. Me lembro de ter ido a uma churrascaria depois da partida, não para saciar a fome inexistente, mas para não ficar só. As mesas estavam todas tomadas, e no entanto pouco se ouvia. Aqui e ali, um talher batia de leve na borda de um prato. Tudo era lasso, triste. Ninguém comia. Eram todos torcedores. Todo time tem suas batalhas históricas, determinantes. O torcedor deve mencioná-las sempre, e jamais com a serenidade de um historiador, mas com a ênfase de um veterano combatente. Sou Botafogo. Quando, em 1989, com um time modestíssimo, entramos em campo contra o poderoso Flamengo de Zico para disputar nosso primeiro título depois de 21 anos, tivemos a nossa Stalingrado (somos os soviéticos). Anos mais tarde, contra o mesmo Flamengo, jogamos com um time reserva, do goleiro ao ponta-esquerda, e a partida foi a nossa Agincourt: “Nosso pequeno exército, nosso bando de irmãos” (somos os ingleses). Em 1999, diante de mais de cem mil botafoguenses, Paris caiu e éramos franceses - o título da Copa do Brasil nos escorreu pelas mãos num empate amargo em pleno Maracanã. Em 2002, a campanha da 2a Divisão foi a nossa batalha da Inglaterra; ao longo de seis meses, resistimos à descrença geral e, quando já nos davam como perdidos, superamos as adversidades e provamos, como os ingleses, que estávamos vivos. Sobre o atual Campeonato Brasileiro, é cedo para falar, mas pelo jeito como começou, vem à mente o Vietnã. Não somos os vietmanitas. Durante a partida sobram a vileza dos zagueiros adversários, a qualidade épica do nosso atacante (quando marca), sua constrangedora imperícia (quando erra), a cegueira do técnico (sempre), a impostura do juiz (sempre), os gritos de guerra (vogais compridas, nunca consoantes), os grandes silêncios (sempre de um time só) e, sobretudo, a consciência do tempo. Sempre supus que o estádio de futebol fosse um lugar tão adequado quanto o laboratório de física para ensinar a relatividade. Todo torcedor sabe que o tempo não é absoluto. É imenso, oceânico, para quem está ganhando, e minúsculo, quase nada, para quem está perdendo. Na estranhíssima física que rege a partida, é como se não houvesse passado nem futuro, apenas um presente que se consumasse sob a forma de um bloco sólido de 90 minutos. Para uns, os que vencem, esse presente parece nunca terminar de se cumprir; para os outros, os perdedores em busca desesperada do gol, ele já carece de duração. São duas experiências reversíveis, sem dúvida. De um só golpe, violentamente, o tempo ínfimo de um é expandido ao infinito, enquanto a eternidade do outro é reduzida a um instante quase findo. Basta um gol. Um modo alternativo de ver: o tempo não é externo, mas interno. É o que os franceses chamam de durée — a duração, a dimensão psicológica do tempo. Os torcedores só conhecem a durée. É ela que determina a experiência da partida. O tempo objetivo, o cronológico, só volta a vigorar com o apito final do árbitro. Depois da partida, sobra o padrão das pedrinhas portuguesas no chão, quando perdemos, e a mão espalmada contra o céu, quando ganhamos. Indo além dessas leis mais gerais do torcedor, cada um segue as regras da subcultura a que pertence. Numa cidade como o Rio de Janeiro, é possível deduzir boa parte da visão de mundo de alguém pelo hino que canta quando vai ao Maracanã. Tricolores têm a doce afetação da nobreza decaída. Estão juntos de nós, na calçada, mas fingem nos olhar da cobertura, de onde já foram despejados faz tempo. Seriam arrogantes se ainda tivessem esperanças de reverter a história, mas como a Revolução Francesa aconteceu há mais de duzentos anos, eles decidiram, acertadamente, viver bem sem fazer mal a ninguém, como um Orleans e Bragança em Petrópolis. Vascaínos — pelo menos os da Zona Sul — são solitários. Vão sozinhos ao Maracanã. A maior parte da torcida se concentra nos subúrbios. É o verdadeiro clube popular da cidade, o anti-Fluminense. Houve um tempo em que torcer pelo Vasco era um gesto de integração racial, uma nota de pé de página ao Casa Grande & Senzala. Era socialmente arriscado, e ainda é, ser Vasco nos círculos mais abastados da cidade. Ao contrário do Flamengo, o Vasco não traz prestígio social. O vascaíno que quer torcer coletivamente é obrigado a se misturar ao povo, não a uma idéia de povo. Curiosamente, o Vasco tem uma imensa torcida mas lhe falta a alma coletiva, o instinto de conjunto. Nunca foi percebido como um time de massa. Vascaínos podem ser milhões, mas acabam sendo contados um a um. E se o Vasco é a casa-grande e senzala, o Flamengo é o prédio burguês brasileiro, com elevador social e de serviço. Algumas pessoas usam os dois, mas quase sempre o rubro-negro que toma um desconhece o outro. O flamenguista é seguro de si, não tanto por saber quanto vale, mas porque se sente forte na multidão. Ele nunca está só (mesmo quando está), a idéia do indivíduo lhe é estranha. O fato de pertencer ao clube mais querido do Brasil lhe dá certezas. O torcedor rubro-negro é poderoso como um americano. Como um Jefferson, acredita na idéia do destino manifesto. Vencerá no fim, não importa a qualidade das circunstâncias, pois a camisa lhe será suficiente. É um otimista de pensamento mágico. O Botafogo é o contrário. Somos céticos de alma trágica. Carregamos para o campo nossa condição de mortais com consciência. Um filósofo alvinegro escreveu que a vida não termina bem — termina com gol do adversário, por assim dizer —, e essa é “uma verdade que somos incapazes de admitir, mas também, e infelizmente, muito capazes de entender”. Não é outra a natureza da tragédia. Já a definiram como uma aliança entre o necessário e o impossível. Precisamente, dirá o botafoguense. Assim como é imperativo escapar da morte, também seria muito importante não perder em casa para o Goiás. Entretanto, o imperativo é impossível, e o importante, pouco provável. Donde a nossa tragédia, que não deve ser confundida com prostração ou desengano. É apenas uma forma de admitir o absurdo da nossa condição, de olhar no olho do irremediável e não piscar. Enquanto todos os outros torcedores vão ao jogo de futebol para escapar da vida, nós, botafoguenses, vamos ao estádio para entendê-la melhor. Compreendemos — e aceitamos — o caráter inapelável da realidade. Em outras circunstâncias, o time poderia ser melhor, claro, mas não hoje, neste momento, com estes jogadores, contra este adversário. Nessas horas sem volta, os não-botafoguenses sucumbem à ilusão de outras possibilidades, como um rebanho de fiéis pendurado na promessa de outras vidas. Nós, não. É claro que nada disso é assim fácil. O sujeito pode trazer um filme de Frank Capra na alma, mas ponha-o dentro do Caio Martins e nele se instalará um Bergman. Já vi homens crescidos, advogados de causas imensas, financistas supremos agarrarem as mãos no alambrado e tremerem feito crianças assustadas. Já vi poderosos estragarem seus bons sapatos na lama que se acumula perto do gol, na esperança de cochichar para a zaga conselhos exasperados de última hora. Já vi derrotados catatônicos em ternos ensopados, a chuva escorrendo nos seus queixos fortes, esquecidos de que no dia seguinte seriam chamados a decidir sobre taxas de juro e reformas constitucionais. Há pouco tempo, na saída do estádio, num dia em que vencemos ao nosso modo, desesperadamente, um homem de olhos injetados gritava: “Ninguém sofre mais do que eu! Ninguém sofre mais do eu!”. Cada time tem seus usos. Ministros de Estado, capitães de indústria e generais-de-brigada fariam bem em ser um pouco Botafogo. Mais cedo do que tarde, descobririam que os planos são instáveis, que as certezas são poucas e, principalmente, que o mundo não lhes obedece. Já o sujeito que acaba de ser abandonado pela mulher sofrerá menos se for Flamengo. Do ponto de vista da profilaxia da alma, me parece que o ceticismo botafoguense é superior à convicção flamenguista. Se não por outra razão, ao menos por esta: cedo ou tarde todo mundo terminará enfrentando seu momento fatal. Quem sabe não estaremos mais preparados? Ao longo dos tempos aprendemos a vencer — sabemos como é isso —, mas jamais nos iludimos quanto à fugacidade dos bons momentos, pelo contrário. A lógica do pior nos ensinou que, mais dia, menos dia, a vaca voltará para o brejo, como de fato volta, apesar do que dizem os padres e os pastores. Nessa hora será útil ter abandonado toda metafísica nas tardes/noites do Caio Martins. Em dias de derrota, apenas trincamos os dentes, encaramos o abismo e não arredamos pé. É sempre um ensaio para o futuro.
João Moreira Salles.