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quinta-feira, junho 30, 2005

Foi Ela

Por Camilo Pinheiro Machado

Com quarenta e dois anos de medicina e setenta e duas páscoas de vida e de Cuba, eu, Pablo Ferrer, sucumbia ao cansaço, talvez de mim mesmo, e me preparava para o Rio de Janeiro, cidade que há seis anos recebeu minha filha querida de quem tanto sentia saudades.
Esther é o nome do meu eterno neném que já não estava mais perto de mim, devido ao rapto executado por um estudante de História de uma universidade brasileira consentido por ela. Sei que me transformei em um velho muitas vezes rabugento, mas confesso que me incomodava a desenvoltura com que o rapaz de nome Gustavo jorrava rios de filosofia rasa, dissertando sobre Benjamin, Maquiavel, Voltaire e criticando o bom e velho Karl Marx de maneira insólita. “Marx é um grande nome, mas errou em suas principais previsões, Pablo.” – me dizia com um misto de insegurança e soberba.
Dos que não são Marxistas, respeito apenas aqueles que muito estudaram para sustentarem tal posição. E quem era aquele garoto pra falar assim sobre esses gênios da humanidade? Eu também não gostava do seu sorriso, dos seus gestos, do seu sotaque horroroso quando tentava falar espanhol. E ele tinha mãos muito grandes também, mas deixa pra lá.
No inverno de 1969 conheci Maria Luiza, moça inteligente e de personalidade marcante, que apareceu na minha vida antes da mãe da Esther. Acho que em todos os dias da minha vida pensei um pouco em Maria. Seu rosto gordo, sua boca fina, seus olhos ansiosos, sua voz rouca, bonita – a voz que eu mais gostava de ouvir. Maria era professora em uma escola perto do hospital em que passava o dia inteiro e nosso caso de amor foi arrebatador, aquele tipo de sentimento que só se sente uma vez.
Era ela.
Entretanto, a vida nos reservou diversos entretantos em nossa caminhada rumo a separação. Ciúme, traições de ambas as partes e certa dose de egoísmo foram os elementos que configuraram o fim dos abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim, como diria o poeta tupiniquim.
As carícias rapidamente deram vez ao ódio e a perseguição da geniosa Maria Luiza em relação a mim. Explico, é simples e trágico. Um mês depois que retirei minha escova de dentes do banheiro da cabrocha, a mesma pediu-me para operar o câncer no pulmão de sua irmã gratuitamente. Maria só não contou com minha incapacidade técnica na medicina, que proporcionou a morte de Nina, irmã do meu único amor na vida. Matei Nina, e estava ciente de que seria penalizado e minha carreira poderia ter sido encerrada naquele momento. Mas não foi o que se sucedeu. Contei com meus amigos da cúpula de Fidel, que sempre me apoiaram para conseguir cargos e privilégios no hospital. Por ser amigo de infância do irmão do “rei”, Raul Castro, me livrei de todas as sanções possíveis e de certo modo merecidas.
Mas não me livrei do ódio de Maria Luiza. Abatida e rancorosa, minha antiga paixão desceu a América em direção ao Rio de Janeiro. Me lembro, na época, de boatos sobre os motivos pelo qual ela teria ido morar no Brasil, mas eram mais fofocas do que informações, havendo contradições que evidenciavam as mentiras inventadas sobre a mulher mais bonita que Havana já viu.
Cheguei ao Brasil, no Rio, na minha filha. O reencontro com Esther foi muito legal, e o Gustavo não me pareceu ser o estudante babaca que pesquisava sobre as motivações da Revolução em Cuba. Aliás, o moço me pareceu rico, o que me deixava mais tranqüilo em relação ao futuro de Esther. Preocupado comigo, meu prezado genro, também chamado de Guga pela minha filha, me instalou em uma luxuosa suíte de seu amplo apartamento no Arpoador.
Talvez pelo fato do Rio de Janeiro e eu sermos muito velhos, nos demos bem. Minha rotina matinal se resumia basicamente a uma caminhada no calçadão da Vieira Souto até chegar na altura da Rua Joana Angélica, onde virava e seguia em direção ao bar Torre do Barão. Lá, bebia em média três chopes e trocava poucas palavras com três ou quatro semelhantes sobre o tempo e a violência que eu ainda não tinha encontrado no Rio. Invariavelmente, retornava de táxi.
De bem com minha filha e satisfeito com meu dia-a-dia típico dos velhinhos de Ipanema, tinha totais condições de estar tranqüilo. Não estava. Sabia que cedo ou não, Maria Luiza iria aparecer na minha vida novamente e não sabia como iria me comportar perante sua inconfundível boca que tanto me fez feliz um dia. Pois foi cedo que a já velha Maria me achou.
Começo de noite de um sábado, o telefone toca, Esther atende, me passa, escuto: “Pablo?” - e desligo.
Era ela.
Sem dúvida, irreconhecível jeito de me chamar. Dúvidas sobre o que fazer. Ela estava atrás de mim, queria retaliação de certo. Maria Luiza devia guardar na lembrança, em vez de momentos nossos de amor, somente as lágrimas derramadas ao longo desses trinta e cinco anos sem sua irmã.
Na mesma noite fui ao Torre do Barão, dessa vez dispensando a caminhada na ida e pegando o táxi, necessário no momento. Chegando, não expus de imediato meu problema, mas instintivamente fui em direção a Aparício, espirituoso colega de chope e Caipirinha, e Almirante aposentado da Marinha. Passava um jogo do Flamengo na tevê e Aparício não dava sinais de que desviaria seu olhar tão cedo. Calado e flamenguista, o Almirante seguia sua esportiva angústia, quando obstrui sua visão da tela e chamei:
- Almirante, preciso conversar com alguém...
Sentados frente a frente, fumávamos trocando perguntas, cujas respostas eram dispensáveis: “Como vai sua filha?” “Conseguiu pintar finalmente a sala?” “Como estão as aulas de ginástica?” Pedimos uma cerveja para fazer jus à mesa. Era uma cerveja amarga, porque o gosto das cervejas é a gente quem faz, com a doçura ou o amargo que se traz da vida. Faltando dois dedos para a garrafa terminar comecei a contar meu caso, encerrando a explanação do fato no começo do quarto casco de cerva. A partir daí iniciou-se a consulta do Doutor Aparício:
- Meu velho, toma cuidado. Vingança assim não tem limite. Pelo que você me disse ela é uma mulher difícil. Ela tá te procurando pra acertar as contas.... Você tem arma?
Arma? De fogo? Nunca tinha usado, mas na seqüência de sua oratória, o Almirante me prometera o empréstimo de sua 8mm, me ensinando a atirar também. Em tempo: Aparício me convencera de que o melhor para mim era uma arma para um possível “ataque da velha”, como ele mesmo disse.
Na volta para casa o porteiro contou que uma senhora muito bem arrumada me procurou e, como não tinha ninguém no apartamento naquele momento, o recado ficara na portaria.
Na manhã seguinte, não fui caminhar. Como Gustavo e Esther foram trabalhar, fiquei sozinho no apartamento a manhã inteira. Bebi seguramente meia garrafa de um 12 anos fajuto que Gustavo esquecia empoeirado no armário da cozinha.
O interfone tocou e iniciei a caminhada mais nervosa da minha existência. “Seu Pablo, é uma senhora chamada Maria, pode subir?” Pode.
Era ela.
No período que corresponderia à viagem de Maria Luiza no elevador, mijei nas calças, encharcando minha calça de vergonha, medo e, obviamente, mijo, dando tempo também de pegar a pistola do Aparício, já carregada. Foi tudo muito rápido, quase automático. Apontei o revólver para a porta entreaberta, pronto para fuzilar aquela que vinha para vingar sua irmã. Maria queria me matar. Ouvindo o grunhido da porta, mirei; e com a apresentação visual da visita, disparei duas vezes em sua cabeça.
Com seu corpo estendido no chão, me aproximei assustado com minha própria reação. Ela segurava flores e uma bolsa com dezenas de cartas. Peguei uma aleatoriamente e li:
- Pablo, meu eterno amor, nunca me perdoarei pela minha reação contigo na morte da Nina. É claro que você não teve culpa, só quis ajudar. Te espero no infinito para realizarmos o nosso sonho do amor pra sempre.
Era ela.

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